
Em SiCKO, Michael Moore mais uma vez se supera e dá uma excelente lição de como o cinema, além de sua função artística, pode (e deve) ser usado para causas nobres, emotivas e ’saudáveis’. Este seu último trabalho, que inclusive concorreu ao Oscar 2008 na categoria “Melhor Documentário”, é uma radiografia do estado de calamidade em que se encontra o sistema de saúde pública nos Estados Unidos.
Outro dia na faculdade, uma professora relatou que não assistiria a este filme, que julgou ser uma ironia: “A situação da saúde no Brasil não está nada agradável e me pergunto, por que devo assistir no cinema, um cara se queixar da saúde do país dele, não devíamos olhar para a nossa primeiro?”, questionou. Foi um argumento evasivo, reflexivo, mas o qual não consegui acompanhar. Neste feriado de 1º de maio, gastei um tempo do meu descanso para conferir o porquê do Michael ter dedicado tamanha atenção ao problema da saúde nos EUA.
Segundo as estatísticas apontadas no filme, 250 milhões de norte-americanose possuem planos de saúde. Mas há ainda, 50 milhões que não possuem e que rezam para não chegar à estatística menor, de 18 mil por ano, que morrem por não ter acesso à seguridade privada. E a estas alturas, você se pergunta, qual destes dois grupos dará vida à trama?
A MAIORIA. Estes foram os escolhidos, aqueles com plano de “saúde” e que representam o principal alvo do descaso - de mega corporações farmacéuticas e hospitalares - que exploram a vida e determinam a morte, de seus clientes. Ops, “pacientes”.
Um fato que não me surpreendeu nenhum pouco foi ver, mais uma vez em ação, o corporativismo enraizado, entre a política e os interesses de empresários, que acaba de uma vez com qualquer resquício de humanidade que poderia existir, nestas duas classes. Toda estrutura de cuidado com a saúde “pública” daquele país é permeada - como a maioria dos interesses das grandes corporações - por casos de corrupção, aliado a um trabalho massivo de lobistas, na compra de parlamentares e de decisões govenamentais, para a regulamentação de leis que deixam cada vez mais fragilizada, a democracia americana.
O início do mal estar da saúde americana têm origem datada nos governos de Nixon e Reagan. Eles queriam espantar o ‘fantasma’ do socialismo. Na verdade, o da ’socialização’ da saúde pública. Estes ex-presidentes, com a ajuda de seus atuais sucessores, conseguiram transformar o ‘público’ em privado, um pesadelo para a vida daqueles que acreditavam no ‘american dream’.
Há depoimentos de muita tristeza como também muito sarcasmo. É inevitável não rir com as engraçadas comparações que Michael faz entre a não cobrança de medicamentos e trabalhos cirúrgicos em outros países, em paralelo, com casos como o de um americano que teve dois dedos decepados num acidente e teve de escolher qual seria reconstituído, tendo de pagar de 12 ou 60 mil dólares para isso.
Um momento que destaco como de grande comoção e reflexão, é o da visita que Michael Moore faz, acompanhado de 3 bombeiros que estiveram no 11 de setembro, à Cuba. Desgastados e doentes, devido as difíceis condições de trabalho enfrentadas para resgatar os sobreviventes do atentado, os 3 heróis americanos foram recebidos na pátria de Fidel com extrema atenção e se emocionaram com o alto nível de humanidade e cuidado com a saúde pública, que aquele país de 3º mundo - pobre e não-democrático - reserva a seu povo.
No Brasil
Sim, sou usuário do sistema público de saúde. Já aguardei por atendimento de emergência por mais de 6 horas, socorri pessoas que precisavam de ajuda e aguardei ambulâncias por muito mais tempo que isso. Na pele, sei como é ficar sentado em banco de hospital com gente que não tem nem o dinheiro da condução de volta para casa. É duro. Viver, ou sobreviver, com ou sem plano de saúde no Brasil, é sem dúvida um ato de coragem e perseverança.
Seja nos Estados Unidos, na França ou na periferia de Brasília, a saúde não é brincadeira. E na narrativa de SiCKO, o assunto não é tratado de forma diferente.
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